Se eu fosse um poeta...

Cristina Zanini

Se eu fosse um poeta

teria o direito

assegurado de sonhar.

Deitado em minha canoa

amaria o dia,

cantaria a Lua,

desceria os rios,

subiria nas árvores,

ouviria os pássaros,

tocaria as estrelas,

mergulharia nas nuvens

e voaria sobre o mar.

Subiria os degraus de uma igreja

e, aos quatro ventos,

para quem quisesse ouvir,

cantaria meus sentimentos.

Entraria num circo onde

o palhaço tivesse

a liberdade de chorar.

Olhar-me-ia no espelho

e, mesmo sério,

veria minha imagem refletida sorrir.


Mas,

a canoa furou,

o dia acabou,

a Lua se escondeu,

os rios somente sobem,

os pássaros estão calados,

as árvores foram derrubadas,

as estrelas se apagaram,

as nuvens se dissiparam,

o mar tornou-se poluído,

a igreja desabou,

o vento parou e agora

paira no ar a calmaria.

Minha voz se extinguiu

e meus sentimentos secaram.

Entro no mesmo circo

e o palhaço apena sorri.

Procuro um pedaço de espelho:

mesmo fingindo um sorriso forçado,

a imagem deixa escapar

de seus olhos uma lágrima fugidia.

E eu que já não penso,

nem posso sonhar,

não sonho mais ser poeta.


Agora, ando pelo mundo.

Ainda não encontrei alguém

que pudesse libertar

o poeta do espelho

que continua a chorar.

Ninguém que consiga

livrar-me, poeta,

numa noite de insônia,

num caco de espelho,

fui me aprisionar...


Conheci a Cris na volta de Fernando de Noronha e desafiei-a a expor seus poemas. Como podem verificar, ela ganhou a aposta!