O Tubarão da Lua

Eduardo Valente

Poucos podem se gabar de ter um nascimento tão, digamos, interessante do que o Tubarão da Lua.

A primeira coisa de que ele diz se lembrar é do mar fazendo cócegas em sua barbatana e em seu rabo... Depois, a cócega foi se espalhando e, quando chegou nos olhos, uma inundação de luz quase o cegou. Ainda não conseguia se mexer e as cócegas estavam quase pelo corpo todo. Foi aí que ouviu uma voz:

"Olha... quando as ondas do mar o cobrirem por inteiro, ele vai virar um tubarão de verdade.", disse a voz adulta.

"Mas, será que ele vai me reconhecer depois ?", uma vozinha de menino apreensiva perguntava...

"Claro! Escrevemos o teu nome no corpo dele, certo?"

"Ah! É... Então tá bom... Vamos catar conchinhas?"

Quando se acostumou com a luz, conseguiu ver os donos das vozes se afastando. Era um sujeito alto de cabelos lisos e um molequinho de seus três ou quatro anos, com os cabelos encaracolados.

Quando as ondas terminaram o trabalho, o tubarão já podia se mexer e, embora quisesse esperar os seus criadores, sabia por instinto que um tubarão assim, no meio da praia, não poderia sobreviver, seja por falta de água, seja por ataque dos homens. Então, aproveitou uma onda mais forte e ficou observando a mais ou menos uns cinqüenta metros de distância.

Meia hora depois, a dupla voltou. Com seus ouvidos de tubarão, ele conseguiu escutar, bem baixinho, a conversa:

"Olha só! Ele já virou tubarão!"

"Não te disse?"

"Só sobrou isto, olha!"

O tubarão morreu de curiosidade de saber o que tinha sobrado, mas não podia fazer mais nada. Deu umas remexidas, umas corridas mar adentro e, não descobrindo nada faltando, saiu para descobrir o que aquele imenso mundo subaquático lhe reservava...


Decidido a saber quem ele era afinal, e sem conhecer as regras de etiqueta do fundo do mar, foi direto para um bando de golfinhos que brincavam, ali perto de Fernando de Noronha.

"Olha o cara!!! Uáháhá!!! Que coisa ridícula!!!" gritavam os golfinhos e o tubarão, sem entender porque, ficou com muita vergonha, mas mesmo assim foi perguntar:

"Olá, eu acabei de nascer e ainda não sei muitas coisas... O que está errado comigo ??"

Um dos golfinhos, que parecia o líder do bando, falou, entre muitas gargalhadas: "Onde já se viu um tubarão com um rabo destes ??? E ainda com uma tatuagem do Flipper ?!?!?"

"Como? Não entendi... Que tatuagem e quem é Flipper ?", perguntou o tubarão. "E o que tem meu rabo ?? Não é igual aos outros tubarões ???"

Os golfinhos nem conseguiam responder de tanto que riam e o nosso tubarão foi embora, tristonho, para outro lugar. De preferência, onde não houvesse golfinhos!

Decidiu ir para o sul e, conforme nadava, as águas iam ficando mais e mais frias....


Certo tempo depois, chegou na Antártica. "Brrrrrr !!! Que frio !!! Isto não é lugar prá tubarão!". Mas como já estava lá, perguntou para uns pingüins que tomavam banho de sol em cima de uns blocos de gelo:

"Olá! Por favor, vocês podem me explicar uma coisa ?"

De cara, os pingüins se assustaram e ameaçaram fugir dali, mas quando viram o que lhes perguntava, começaram a rir da mesma maneira que os golfinhos... O tubarão já estava indo embora, mas um dos pingüins mais velhos, que parecia ter um mínimo de piedade do moço, falou:

"Olha, amigo... Só de um tubarão falar 'por favor' para um pingüim, se percebe que você está com sérios problemas ! A gente está rindo porque nunca ninguém viu um tubarão com este rabo e com esta tatuagem !"

"O que tem meu rabo ? O que tem minha tatuagem ?", suplicou o tubarão.

"Teu rabo é muito diferente de qualquer tubarão... tem o formato da lua minguante !! E tua tatuagem, meu caro... Tem o nome do seu maior inimigo!"

"Quem ?" assustou-se.

"O Flipper. O golfinho mais famoso de todos os tempos. Se bem que não é assim que se escreve. Seria F-L-I-P-P-E-R, mas no teu corpo tá FLIPE...", explicou o pinguim.

"Bom, acho que é melhor contar minha história prá você então", disse o tubarão.

E todos os pingüins se amontoaram num pequeno iceberg e prestaram muita atenção, já que não é sempre que um pingüim pode escutar história contada por tubarão e não ser comido!

Quando terminou de contar, alguns pingüinzinhos estavam chorando, todos comovidos com aquele órfão meio esquisitão.

O pingüim mais velho pronunciou: "Você deve ter vindo da lua, porque seu rabo tem a forma da lua. Deve ter caído de lá e esborrachado na praia onde, por magia ou por milagre, conseguiu se salvar e agora deve encontrar uma maneira de retornar ao seu lar!"

"Caramba!", pensou o tubarão, " e agora, se não tenho asas e a lua é tão longe?"

O tubarão da lua se despediu dos seus novos amigos e rumou de volta para águas mais quentes, porque aquelas estavam de matar tubarão...


Nadou, nadou, nadou e, algumas semanas depois, chegou num lugar cheio de tubarões brancos, daqueles ferozes e enormes. Com um pouco de medo, foi chegando, falando oi e aquela gangue só encarando o pobrezinho...

"Alto lá!" gritou o que parecia ser o chefe deles. "Quem é você, seu esquisito?"

"Oi... eu sou... eu ainda não sei meu nome, mas podem me chamar de Flipe..."

Um urro de ódio percorreu o lugar. Aqueles tubarões brancos foram se aproximando, prontos para devorar o tubarão da lua!

"Espião ! Espião ! Capanga do Flipper !!"

O tubarão, entendendo o problema, gritou: "Não !!! Não sou não !!! Eu nasci assim e não gosto de golfinhos igualzinho vocês !!"

"Você tem a insígnia dos golfinhos no teu corpo ! Se é marca de nascença, pior ! Pode ser profecia !!"

"Profecia? Que raio de profecia é esta ???"

"Você não sabe ? Dizem que no dia do fim dos tubarões, um golfinho em corpo de tubarão viverá entre nós e a partir deste dia os golfinhos nunca mais se preocuparão com os tubarões !!"

"Isto é besteira ! Não sou golfinho de jeito nenhum ! Sou um tubarão da lua !"

Os grandões se entreolharam. Um segurava a risada, outro fingia que estava entendendo tudo. A maioria olhava para ele com aquela cara que só tubarão sabe fazer quando não entende bulhufas.

O chefão se aproximou e, meio desconfiado, falou: "Bem... isto pega ?"

"Acho que não... pelo menos, até agora ninguém ficou com o rabo igual ao meu e nem apareceu nada escrito no corpo dele..."

"Bom, então tudo bem. Se você quiser passar um tempo por aqui, aprendendo as artes da guerra contra os golfinhos, pode ficar.", sentenciou o chefão.

E o tubarão da lua passou um tempo por lá. Era engraçado ver aqueles monstros, de cinco metros e várias toneladas, rastejando pelo fundo do mar até ver lá em cima uma foca desprevenida. Então, eles se arremessavam e, abocanhando a foca, saíam com o corpo inteiro fora da água, esparramando água prá todo lado.

Como o tubarão da lua não gostava tanto assim de carne de foca (ele preferia os peixes), só aprendeu a técnica de saltar para, em noites de lua cheia, quando a lua parece que está mais pertinho da gente, saltar bem alto e tentar voltar para casa. Ele ficou tão bom nisto que, como os outros tubarões não faziam nada à noite mesmo, já que não tinha foca no escuro, montaram uma arquibancada para ver o nosso amiguinho quebrar seu próprio recorde.

"Viva o tubarão da lua! Hoje pulou dezesseis metros !" gritava o locutor.

"Viva ! Viva !! Amanhã serão dezoito !!" gritava a multidão.

E a vida prosseguia assim e os anos foram passando, passando, sem que o tubarão da lua percebesse. Já tinha salvo os seus amigos de vários ataques dos golfinhos e de pescadores maus. Com o tempo,ganhou seu nome de guerra que usa até hoje: Lunarão.

Apesar de Lunarão ser bem menor que o resto do bando ( ele tinha dois metros e meio, menos da metade da maioria do bando ), ele era muito mais ágil e veloz e, quando a lua era cheia, ele ficava até mais forte ! Ninguém sabia porque, mas achavam que era porque ele era especial e tinha vindo da lua mesmo...

Uma noite de lua nova, quando não tinha graça saltar, o tubarão chegou quietinho perto da praia e ouviu uma foca contando estórias para as foquinhas, que existia a morada do Rei do Mar, onde tubarão nenhum podia entrar e este rei poderia atender qualquer pedido para aquele que se mostrasse digno. Já perceberam que o Lunarão não dormiu mais aquela noite, só pensando em como seria este rei ? Eu, pelo menos, perderia todo e qualquer sono !

Então fez um plano: durante o dia, quando nenhuma foca estava esperando, ele se aproximou da praia e raptou uma foquinha, que era a filha do Rei das Focas. Foi uma gritaria só !!

"Solta ela, verme covarde de sangue frio !!", gritava o rei das focas, "Vem lutar comigo que te faço virar sardinha !!!"

"Eu solto sob uma única condição !" gritou o Lunarão.

"Eu aceito, mas solte antes !" e o Lunarão soltou a foquinha e chegou perto da praia...

"Fiz a minha parte e agora você vai ter que fazer a sua: me contar onde fica a morada do Rei do Mar !"

"Eu fiz um juramento que não contaria, mas acabei de fazer outro prá você que aceitaria a condição... O Rei do Mar vai me lançar uma maldição se eu contar para um tubarão onde fica a morada dele !"

"Fique tranquilo que eu não nasci nestes mares, mas na Lua. Portanto, você não vai estar quebrando seu juramento..."

Então o Rei da Focas contou. Pediu segredo total e o Lunarão achou justo.

Se despedindo dos seus amigos ( tinha tubarão chorando, que eu vi... ), começou a seguir o mapa que a foca tinha desenhado numa folha de alga. Era muito longe dali e a viagem iria durar mais de um mês.


Foi muito, mas muito difícil chegar na morada do Rei do Mar... Primeiro, precisava passar por uma caverna muito escura, que parecia que não acabava mais! Acho que foram três dias nadando sem parar, na mais completa escuridão, correndo o risco de tomar o caminho errado a todo momento.

Enfim, atravessou a caverna... e caiu num mar muito bravo !! Era bem raso e com muita onda ! Se bobeasse, a onda arremessava nosso pobre Lunarão em cima de uma rocha e aí, ó, babau ! Horas e horas lutando contra a correnteza e o que ele viu depois, já machucado e muito cansado, foi de apavorar !

Já começava a achar que o Rei das Focas tinha mentido para ele, principalmente vendo aquele polvo enorme com cara de poucos amigos a esperar por qualquer um que quisesse chegar no castelo. O castelo do Rei do Mar estava logo atrás do polvo que, pelo jeito, era o guardião do portão do castelo. Se o Lunarão tivesse pelo, arrepiaria todos ao ouvir aquele polvo imenso, de mais de dez metros, perguntar, soltando aquela tinta preta que os polvos têm:

"Quem se atreve a adentrar nos domínios do Rei do Mar ??"

"Oi ! Bem... eu sou o Tubarão da Lua, mas me chamam de Lunarão...", falou o tubarão, morrendo de medo.

"Os tubarões foram proibidos há muito tempo de permanecer aqui ! Suma da minha frente !", gritou o polvo.

"Mas eu não sou daqui, eu sou da lua!", protestou, "você tem que me deixar falar com o Rei do Mar !"

O polvo não entendeu e ficou com uma cara parecida à dos tubarões e disse, com muito cuidado: "Bem... isto pega ?"

"Acho que não... já andei por muitos mares e até agora ninguém pegou..."

"Espere um pouco aqui, que eu vou perguntar pro meu chefe... Não saia daqui, ou...", disse o polvo, apertando os tentáculos contra uma pedra e fazendo dela poeira...

O tubarão da lua esperou, esperou e esperou... Duas horas depois, veio o polvo, entregando um comunicado.

"O Rei dos Mares o aguarda amanhã, logo que o sol iluminar a Concha Vermelha."

"E que raios é esta tal Concha Vermelha ??"

"Olhe ali e verá", apontou o polvo para uma rocha, com uma conchinha do tamanho de uma mão de criança. "Quando ela brilhar, você pode entrar..."

Como, pelo jeito, a concha não brilharia tão cedo, o tubarão da lua foi conhecer os arredores. Encontrou, logo depois de uma moita de algas, duas lagostas que discutiam animadamente sobre tubarões e golfinhos. Quando viram o Lunarão, tentaram fugir de medo mas, vendo que não lhes faria mal nenhum, se aproximaram.

"O que um tubarão está fazendo por estes lados ? Não sabe que o Flipper está por perto ?"

"Olhe... Eu nem conheço este tal de Flipper mas já estou ficando cheio dele..."

"Você tem é medo...", disse a outra lagosta.

"Como vou ter medo de alguém que eu nem conheço e não fiz nada de mal prá ele ?!?!?!"

"Mas seus irmãos e primos fizeram... Golfinhos e tubarões são e serão inimigos mortais !"

"Acho uma besteira tão grande... Isto de nascer inimigo de alguém... Isto deve estar errado..."

"É, você me parece um tubarão diferente dos outros... Nunca ouvi isto, nem de tubarão, nem de golfinho..."

"E porque eu sou um tubarão da lua. Eu sou diferente !"

"Diferente no quê, criatura ?", resmungou a lagosta menor.

"Meu rabo é diferente e eu tenho esta tatuagem no meu corpo..."

"Olha só !!! Tá escrito Flipper, mas tá escrito errado...."

"Não... Deve ser outra coisa, mas ninguém ainda conseguiu explicar..."

"Pobrezinho... Além de analfabeto é órfão...."

"Lagosta, lagostinha... Você está querendo virar jantar... Foca eu não gosto, mas lagosta é muito gostoso, hein ?", disse o tubarão mentindo, porque ele só gostava de peixe de alto mar, como atuns e dourados.

As lagostas entenderam o recado, pediram desculpas e engataram outro assunto e outro e mais outro. Como eram tagarelas !! O Lunarão nem viu o tempo passar quando, atrás dele, uma luz vermelha começou a tomar conta de tudo.

"A Concha !" gritou o tubarão, saindo rápido para se encontrar com o Rei do Mar, antes que ela parasse de brilhar.

Entrou como um furacão e se viu cercado por seres que ele nunca tinha ouvido falar. Sereias, tritões, cavalos marinhos gigantes, serpentes marinhas... Todos olhavam para ele como se ele fosse a coisa mais estranha. E, se pensar direito, ele era mesmo ! Então, uma voz como de um maremoto falou...

"Quem é você, tubarão esquisito ? Como se atreve a romper uma lei que eu fiz ?"

"Bom, meu nome é Lunarão e eu sou um tubarão da lua. Antes que perguntem, isto não pega!", começou o tubarão, fazendo uma serpente que estava louca para perguntar baixar o braço, "Eu vim aqui porque preciso entender quem eu sou e quero voltar para casa !"

"Mas mesmo assim eu dei uma ordem para que nenhum tubarão se aproximasse deste lugar, sob a pena de virar patê. Como ousa quebrar minhas leis ?"

"Eu não quebrei lei nenhuma... Eu acho que eu vim da lua e lá deve ser outro rei que cria as leis..."

"É sim. É meu irmão, o Rei da Lua. Mas ele nunca me disse que havia tubarões por lá... Você espere aqui que vou me comunicar com ele..."

O Rei do Mar saiu e, cinco minutos depois, voltou. Estava com um sorriso diferente e parecia que ia ajudar o tubarão da lua a voltar prá casa, mas não foi bem isto que todos escutaram...

"Para mostrar-se merecedor do que veio buscar, Lunarão, desafio você a enfrentar meu campeão, numa série de três desafios. Se você ganhar dele, eu atenderei seus desejos. Se você perder, será expulso, assim como todos os outros tubarões, destes mares."

"Mas eles não fizeram nada de mal para você... Por que seriam punidos ?"

"Não fizeram hoje, mas há muito tempo atrás, mataram uma grande amiga, que nada tinha feito a eles. Ela era a mãe do meu campeão e eu nunca perdoarei a eles, principalmente os tubarões martelo !"

"Bom.. se é assim, eu aceito. Onde está seu campeão ?"

"Você saberá quando chegar o dia. Quando a concha azul brilhar e enquanto brilhar sua luz, as competições terão início. Meu general polvo o levará para lá e minhas arautas lagostas, que você conheceu, levarão a notícia a todos os mares."


Mais de um mês se passou e nada da concha azul brilhar. Foi quando uma luz muito forte, acompanhada de um som grave, fez-se ouvir por todos os lados. Era chegada a hora. Nos próximos três dias, ou o Lunarão retornaria para sua casa ou os tubarões seriam seus inimigos mais mortais.

Na arena formada por dois penhascos, milhões de seres marinhos se espremiam, todos curiosos com o Grande Duelo. O Rei do Mar, em um trono formado de lulas reluzentes, que mudavam de cor a todo instante, apresentava seu campeão: ninguém menos que Flipper, o golfinho !

O Lunarão sentiu o sangue parar, mas não demonstrou nada. Por alguns instantes, um olhava com cara de mau para o outro.

Quanto às torcidas, alguns escreviam FLIPE no corpo, outros escreviam FLIPPER. Como ninguém nos mares sabe escrever direito, ninguém sabia para quem o outro estava torcendo. Uma briga ali, outra acolá, mas ninguém estava a fim de briga, estavam é querendo saber quais seriam os três desafios.

Quando o General Polvo apareceu, todos se calaram. Ele usou quatro de seus braços para desenrolar o pergaminho e, depois de limpar a garganta, falou com a sua voz de trovão:

"O primeiro desafio da série de três, entre o Lunarão, campeão dos tubarões, e o Flipper, campeão dos demais seres do mar é o seguinte: vence quem completar o percurso primeiro. Vocês deverão percorrer os Calabouços da Atlântida e encontrarem uma alga rara conhecida como Casulo de Ouro. Se os dois sobreviverem ao que encontrarem lá, quem a trouxer primeiro será o vencedor do primeiro desafio."

"Como saber qual é a alga certa, meu rei e mestre ?", perguntou Flipper.

"É a única que não se dissolve quando colocada sob a luz da Concha Azul. Sigam seus corações e bom duelo !"

Lunarão e Flipper rumaram então para a cidade perdida de Atlândida. Os homens habitaram aqueles lugares há muito tempo atrás, quando o Rei do Mar resolveu que eles eram muito maus para permanecerem vivos. Nos calabouços da cidade submersa, ainda havia lugares que, mesmo séculos depois, ainda tinham o cheiro ruim da maldade dos homens. Era ali que os dois buscariam a alga.

Quando chegaram ali notaram a grande dimensão do desafio: todas as algas eram douradas! Algumas eram maiores, outras menores, mas todas, sem exceção, brilhavam como ouro. Como reconhecer a verdadeira ??

Era preciso usar a inteligência... Algumas eram algas vivas, enquanto outras estavam mortas. Algumas eram algas, outras só se pareciam com algas...

Depois de muito olharem, só sobraram duas: uma tinha a forma de uma borboleta e a outra a forma de uma estrela. "Qual das duas ??", pensou Lunarão. Flipper foi mais rápido e pegou a de formato de borboleta.

Lunarão pegou a outra e nadou o mais rápido que pôde. Passou Flipper, mas não muito. Qualquer parada para descansar e ele perderia o desafio ! E se as duas não se dissolvessem e só fossem a mesma alga, brincando de fazer formas de outras coisas ??? Tinha que chegar em primeiro !

Aos poucos foi vendo ao longe a luz azulada da Arena da Concha Azul. Ele e Flipper alcançaram a arena quase ao mesmo tempo, com um focinho de tubarão de vantagem para o nosso Lunarão.

O Rei do Mar pegou as duas algas, mostrou à multidão, que torcia como louca. Então, nadando, foi se aproximando da Concha Azul... Conforme chegava perto, as algas mudavam de forma...

A de Flipper, em formato de borboleta, se encolhia e parecia que ia se dissolver, mas em vez disto, se transformava num casulo, o Casulo de Ouro !

A de Lunarão, pobrezinha, brilhou cada vez mais até atingir o brilho de uma estrela e depois explodiu numa nuvem de pó de ouro... Foi muito bonito e muitos gritaram "Oh !" mas, que decepção !!

Flipper ganhara o primeiro desafio. Os golfinhos comemoravam, enquanto os tubarões faziam cara de bravo para o Lunarão, que não poderia perder nenhum dos outros dois desafios ou seria expulso, junto com todos os outros tubarões e, pior, nunca mais saberia de onde veio...

Restava a ele esperar quando o Rei do Mar proclamasse o Segundo Desafio... O que seria desta vez ?


Todos tinham seu palpite sobre o que seria o Segundo Desafio, mas ninguém acertou.

De novo, apareceu o General Polvo e, com a voz ainda mais alta do que de costume, gritou o desafio:

"Vence o desafio quem ganhar a Queda-de-Braço, ou se preferirem Queda-de-Nadadeira, com o ser mais forte de todo o mundo aquático. Se ninguém ganhar, vence quem ficar mais tempo. Como vocês, o insuperável Monstro do Lago Ness !"

Ninguém aplaudiu. Quem se atrevia a falar, falava bem baixinho quando apareceu aquele monstro, com mais de trinta metros de comprimento. Flipper engoliu em seco... Lunarão quase chorou... Muitos da platéia queriam suas mães, de tanto medo que aquele monstrengo dava em quem visse...

"E aí, general? Quem eu vou destruir hoje ?", brincou com uma voz que parecia uma cobra com megafone.

"Aqueles dois ali. Eles vão disputar queda-de-nadadeira com você.", respondeu o polvo.

"Uá,há,há !!! Fácil ! Extremamente fácil !! Em cinco minutos, já volto prá Escócia !! Minha janta nem vai esfriar !!"

Como Flipper tinha ganho o primeiro desafio, deveria ser o primeiro a disputar com Nessie. Depois dos cumprimentos preliminares que toda queda-de-nadadeira tem que ter, os dois cruzaram a nadadeira e esperaram a ordem para começar a disputa.

"Três... dois... um... já !!", gritou o polvo, e os adversários começaram a mostrar suas forças.

No início, o Flipper, que era bem mais rápido que o Monstro do Lago Ness, quase conseguiu o improvável, mas Nessie segurou o golfinho e começou a sorrir, enquanto encarava Flipper olhos nos olhos...

Três minutos depois, Flipper desistiu. Sua nadadeira estava começando a sangrar e a dor estava insuportável. Num grito que até os tubarões ficaram com pena, ele foi jogado a vinte metros de distância e bateu a cabeça num coral, ficando desacordado por mais de meia hora.

O silêncio era total enquanto os caranguejos, que são os médicos marinhos, cuidavam do golfinho e passavam algas medicinais em sua ferida. Quando Flipper finalmente acordou, olhou para o monstro e abaixou a cabeça, triste.

Era a vez de Lunarão. O General Polvo anunciou e ele foi se colocar no ponto de onde o grande Flipper só tinha ficado três minutos. Se aguentasse mais tempo, mesmo com muitos machucados, arrastaria a disputa para o terceiro e maior desafio. Não era hora de medo. Não era hora de desistir.

O que ninguém percebeu é que o primeiro desafio demorara bastante e, até atenderem o Flipper, a noite já começara a cair. E uma lua cheia brilhava sobre o mar, lançando seus raios sobre os competidores.

Lembram do que acontece com o tubarão da lua quando é lua cheia ? Pois é... Aconteceu !

O polvo contou e deu início à disputa. O monstro riu do tubarão que estava com os olhos fechados e tentou jogá-lo longe, mas tomou um susto ! Por mais força que fizesse, não conseguia mover a nadadeira do Lunarão !

Sob a luz da lua cheia, o Lunarão estava tremendamente forte. Nem que tivesse em sua frente dez Nessies, ele ainda seria mais poderoso...

Passados cinco minutos de disputa, Lunarão abriu os olhos. De dentro deles, brilhava uma luz azulada, igualzinha à da lua cheia. Deu um sorriso de tubarão, olhou nos olhos do monstro, que à esta altura começava a perceber que algo estava errado... muito errado, e começou finalmente a fazer força...

O monstro tentou por alguns momentos equilibrar as forças, mas não teve jeito! Foi arremessado por sobre a platéia, chegando a sair fora das águas, para espanto de um transatlântico que passava ali perto. E caiu tão longe que, de vergonha, nem voltou prá ver o que tinha acontecido. Nadou rapidinho de volta prá Escócia e se escondeu lá no fundo do seu lago, não querendo ver ninguém por mais de um ano.

A platéia urrava !!! O Grande Duelo estava empatado e se o Terceiro Desafio fosse ainda aquela noite, não teria para Flipper nem qualquer outro ser do mar, mas precisavam esperar o golfinho se recuperar da cabeçada nas rochas.

Ninguém se atrevia a deixar seu lugar e, por todos os mares, os nomes de Lunarão e Flipper eram cantados...


Quando enfim se pronunciou o Terceiro Desafio, não foi o General Polvo quem falou, mas o próprio Rei do Mar. Deveria ser algo de muita importância e já não tinha mais lugar na arquibancada para quem quisesse assistir.

Então o Rei falou: "O Vencedor do Terceiro Desafio será aquele que fizer os maiores inimigos se transformarem em amigos. Este é o Terceiro Desafio".

Lunarão olhou para o Flipper, que olhou prá Lunarão e os dois olharam juntos para o Rei do Mar, dizendo em coro com todos os golfinhos e tubarões: "Ah !!! Vá !!! Isto não !!! Tudo menos isto !!!"

Como ganhar o desafio ? Não havia maiores inimigos nos mares do que tubarões e golfinhos. Nem o maior desafio do mundo poderia mudar isto. Mas era um desafio que não se poderia ganhar... Se virassem amigos, haveria empate e ninguém ganhava.

Lunarão estava desolado. Agora que ele nunca saberia de onde tinha vindo ou onde seria seu lar... Para Flipper, era apenas mais um duelo, mas para ele, era tudo...

Então, Flipper chamou-o para um canto e, longe dos demais, conversaram durante algum tempo.

"Olha, Lunarão, estava pensando... eu não sou seu inimigo... e nem você é meu... Você não é um tubarão igual aos outros, você veio de outro mundo ! ", disse Flipper.

"Eu já tinha percebido isto, mas tudo que eu queria saber era que outro mundo é este... Este é um desafio que não vou ganhar.", falou desconsolado, o Lunarão.

"Vou ser sincero. Se você ganhasse eu não ia ficar chateado não... ", confessou Flipper, " mas eu também não sei como resolver este problema..."

"Tenho uma idéia! O que você acha de..." e Lunarão cochichou tão baixinho, mas tão baixinho, que ninguém escutou, nem mesmo eu, que estava prestando muita atenção prá escrever a história direitinho !

Quando voltaram para a arena, sob o olhar de milhares de seres marinhos, Lunarão e Flipper se olhavam com cara de ódio. Nunca, nem mesmo entre os tubarões-martelo e os golfinhos nariz-de-garrafa tinha se visto ódio tão grande...

Lunarão rosnava: "Eu prefiro morrer a ser seu amigo !!"

Flipper retrucava: "Se você quer morrer, eu posso providenciar..."

Lunarão avisava: "Você pode tentar, mas eu partirei você ao meio antes de você pensar em encostar em mim!"

Flipper gargalhava: "Uáháhá !! Posso até morrer mas, se depender de mim, você nunca vai saber de onde veio !!"

Então, Lunarão desanimou. Toda aquela energia sumiu e ele começou a ficar triste, muito triste... Parecia até doente, enquanto Flipper continuava a falar e falar sobre aquele tubarão órfão, sem pai nem mãe nem mundo...

Todos começaram a ficar chateados. O Grande Duelo ia terminar assim ? Sem lutas ? Sem um vencedor ? Foi quando um golfinho saltador chegou perto do Flipper e falou, morrendo de medo do golfinho campeão:

"Ei, Flip ! Manera aí... O cara até que é gente boa...", falou o golfinho, todo torto de medo...

Ouviu-se um tubarão tigre concordando com o golfinho e todos os tubarões olhando bravo para ele. "Mas não é verdade o que o - argh! - golfinho falou ? Eu não gosto dos golfinhos, mas o Flipper não tá jogando limpo..."

Outro golfinho gritou: "Fora Flipper !" e um tubarão completou: "É isto aí !!"

Um bando de tubarões falou: "Viva o Lunarão !!" e um bando de golfinhos, já perto dele falou: "Viva !! Viva !!"

Está certo o que estou contando ?? Os golfinhos e tubarões estavam concordando em alguma coisa ???

Enfim, o Tubarão Branco, rei dos tubarões, chamou o Boto Cor de Rosa, vice-rei dos golfinhos (o rei era o Flipper) e saíram para confabular. Meia hora depois voltaram e Flipper ainda maltratava com palavras o Lunarão.

Os dois reis proclamaram: "Declaramos neste dia que, por causa do Lunarão, nós estaremos em trégua enquanto durar o reinado do Rei do Mar e que o tubarão da lua seja declarado vencedor e Flipper seja banido dos mares, pois não foi um competidor leal."

O Lunarão deu um pulo ! "Ei !! Não é isto !!! Não façam nada com o Flipper que ele é meu amigo !! Quem quiser brigar com ele vai ter que brigar comigo também !!"

Ninguém entendeu nada, a não ser Flipper, que sorria aquele sorriso de golfinho feliz. Os golfinhos, mais inteligentes que os tubarões, entenderam só meia hora depois. O Rei do Mar sorria desde o início...

Então, o Rei do Mar, vendo que todos tinham entendido o recado, se levantou e pronunciou: "Declaro vencedor do Grande Duelo, Lunarão, o tubarão da lua !"

Os tubarões começaram a comemorar e ... espanto !!! ... a maior parte dos golfinhos também !!!

O rei continuou falando : "E declaro vencedor do Grande Duelo, Flipper, o golfinho campeão !"

Todos olharam para o rei, que se dirigiu aos dois campeões.

"Vocês foram brilhantes e conseguiram o que nem eu consegui ! Você se mostraram dignos das lendas e profecias que os antigos contavam antes de vocês e até antes de eu nascer. Vocês mostraram que, juntos, não há ódio que resista nem desrespeito que dure. Vocês descobriram que somente com a união é possível tornar inimigos em amigos. Porisso, como eu disse que quem conseguisse transformar inimigos em amigos seria o vencedor e você dois, que não eram inimigos (eu sabia disto o tempo todo ), fizeram isto, vocês dois são os campeões do Grande Duelo. O Grande Duelo era somente este desafio, os outros dois foram só para atrair todos para cá, pois eu sabia que cada um ia ganhar um deles."

O mar em volta fervia ! Parecia que havia um vulcão se formando ali, tamanha era a gritaria e a felicidade de todos. A profecia estava cumprida e os tubarões voltaram a serem amigos dos golfinhos !

Depois de muita festa, a multidão ficou quieta só para ouvir o Rei do Mar dizer ao Lunarão onde era seu lar. O Rei disse que somente quando a concha amarela brilhasse isto seria dito. E seria dito não por ele, mas pelos reis que viriam até aquele lugar para revelar a origem do Lunarão.

"Mais uma concha ? E agora amarela ?? Poxa... mas pelo menos vou voltar prá Lua, de onde vim !!" suspirou Lunarão.

Os anos tinham se passado sem que Lunarão percebesse e, hoje, Lunarão já estava com vinte e um anos. Quase um quarto de século já havia se passado desde aquele dia na praia...


Quando a concha amarela começou a brilhar, da superfície, imensas carruagens traziam os reis. Estavam ali o Rei das Montanhas, a Rainha do Sol e das Estrelas, o Rei da Lua, O Rei da Terra, a Rainha da Neve e a Rainha dos Rios e Lagos. Era tão bonito, mas tão bonito, que Lunarão quase se esqueceu o que eles vinham fazer ali.

Cada rei e cada rainha se sentou em um trono, feito pelo Rei do Mar somente para aquela ocasião. O povo submarino estava tão ansioso que ninguém ousava falar nada. Então, um som de trombeta quebrou o silêncio.

"Lunarão, por favor, aproxime-se", disse o Rei do Mar, " meu irmão, o Rei da Lua, que te contar um segredo..."

Lunarão, mais do que depressa, chegou mais perto e o que ele escutou, ele não gostou nem um pouquinho...

"Meu filho" disse o Rei da Lua, " você não veio dos meus reinos... Da lua você não é..."

E chamou a Rainha do Sol e das Estrelas.

"Lunarão", disse a rainha, " você também não veio das estrelas e, na verdade, não veio de nenhum reino representado pelos reis e rainhas que estão aqui."

Agora que o Tubarão da Lua estava confuso. Ninguém estava entendendo, mas a rainha prosseguiu:

"Mas nós sabemos de que reino você veio, um reino mais poderoso que todos os nossos reinos juntos. Um reino que ninguém sabe onde fica e onde o rei é uma criança."

Lunarão não se aguentava de curiosidade, mas não queria apressar as coisas...

"Antes de revelar sua origem, vou completar o que está escrito em você. Apesar de você ser agora amigo do golfinho, não é este nome que você carrega. Você carrega o nome do seu criador."

E, olhando para cima, ordenou a uma pequena estrela cadente que descesse dos céus e riscasse o que faltasse no corpo do Lunarão. Então, um nome ficou bem claro: "FILIPE". Faltava um "I" entre o "F" e o "L" !

"E o que isto significa ?" perguntou o Lunarão, que não sabia ler.

"O nome do seu criador é Filipe, que era uma criança quando você surgiu. Hoje, ele é adulto e tem vinte e cinco anos. Ele é o rei deste reino, mas não se lembra mais disto. A criança que ainda existe dentro dele se lembra. Você deve acordá-la."

"Como farei isto ? Onde vou encontrá-lo ???" suplicou o Lunarão.

"No dia em que a concha esmeralda tornar a brilhar, você verá um homem. Ele estará embaixo d'água, em dificuldades. Você deve salvá-lo, pois ele é o Filipe, e uma mágica do reino dele será feita e vocês finalmente poderão se conhecer."

"Qual é o reino dele, ó rainha ?"

"É o Reino da Fantasia. Fica nos domínios do Faz-De-Conta. É mais poderoso que um furacão e mais belo que todas as estrelas do céu. Mas fique atento. Não é fácil entrar neste reino, mesmo tendo vindo de lá. Quando o criador se torna adulto, ele se torna mais fraco. Você precisa fortalecê-lo para que o reino surja para você."

E o Rei do Mar, junto com todos os outros reis e rainhas, abençoaram Lunarão e voltaram, como em um sonho, cada um para o seu reino.


Lunarão ficou um bom tempo dando autógrafos e matando a saudade de velhos amigos: os pinguins, os tubarões saltadores e até mesmo os golfinhos que riram dele nos primeiros dias e agora eram seus admiradores.

Mas no fundo, no fundo, Lunarão só conseguia pensar em uma coisa. Seus pensamentos só existiam para imaginar o dia em que se encontraria com Filipe, seu criador.

E o tempo passou. Não passou tanto tempo assim, mas quando a gente está super ansioso para que algo aconteça, parece que tudo demora mais. E Lunarão estava assim.

Então, numa noite de lua cheia, Lunarão estava nadando lá pelos lados do Egito, no Mar Vermelho, quando, ao mesmo tempo, luzes acima e abaixo dele se acenderam !

As de cima eram de um barco e alguns mergulhadores que visitavam os corais, num mergulho noturno. A luz de baixo, bem, era verde...

Lunarão olhou tranquilo para cima, pois sempre acompanhava os homens que mergulhavam por ali, sempre pensando na promessa da Rainha do Sol e das Estrelas. Mas quase um mês já havia se passado e nenhum homem tinha sido seu criador. Então, ele se escondia, pois não queria se mostrar à pessoa errada.

A luz que vinha lá das profundezas vinha de uma concha que acabara de abrir e que só abria de vinte e dois em vinte e dois anos. A última vez que abrira foi quando o Lunarão virou o Lunarão e abria agora, cada vez com uma luz mais forte.

Lá em cima, algo estava errado! Um dos mergulhadores estava com problemas com o equipamento, e subia rapidamente. Se alguém sobe muito rápido e não é feito para viver sob as águas, morre com muitas dores. A luz verde, cada vez mais forte, não deixava dúvidas, e o Lunarão, disparando em direção ao mergulhador, gritou:

"Filipe !!! Vou te salvar !!!"

O mergulhador, cada vez mais próximo da superfície, sentia seu corpo inchar e todas as suas juntas doerem. Olhou para baixo e achou ser uma alucinação.

"Não sei o que é pior", pensou o mergulhador, "morrer de descompressão ou comido por aquele tubarão que vem em minha direção..."

Lunarão nadava muito veloz e alcançou o mergulhador a menos de dez metros da superfície, onde o risco é muito maior. Rapidamente, o arrastou pela nadadeira e levou-o para trinta metros de profundidade, que era onde ele estava antes e que seria menos perigoso para ele.

O mergulhador olhou para o tubarão com medo, mas logo o medo virou curiosidade, porque ele, que sabia tudo sobre tubarões e seres marinhos, nunca vira um tubarão assim, com rabo de lua e... o mergulhador não conseguia nem mais respirar, quando viu o resto do tubarão.

"Filipe !! É você ??? Fale comigo Filipe !!! Sou eu !! O Lunarão !!! O tubarão da Lua !!", gritou o Lunarão, sem se darconta que estava falando com um homem.

"O quê você quer de mim ? E por que meu nome está escrito no teu corpo ?", perguntou o homem, sem se dar conta que estava falando com um tubarão !

Quando os dois perceberam, não entenderam nada ! Como um homem e um tubarão podem conversar ? Como isto estava acontecendo ?

"Filipe, você lembra de mim ? É você o Filipe que me desenhou na praia há mais de vinte anos atrás ?"

"Eu.... eu... me lembro ! Então era verdade o que meu tio falou ? Você virou um tubarão de verdade ? Mas tinha ficado na praia o primeiro I, não tinha ?? Mas meu nome está completo...."

"Sim !! Sou eu !!! Filipe, a gente tem tanta coisa prá conversar. Venha !"

E Lunarão levou Filipe até o Rei do Mar. Durou menos de trinta segundos a viagem, tamanha a felicidade que o tubarão da lua estava.

O Rei do Mar, com um sorriso imenso, viu que tudo estava resolvido e falou, enquanto todo mundo que estava por perto se aproximava para ver o criador do Lunarão:

"Olá Filipe ! Você é muito famoso por aqui... Eu sou o Rei do Mar e te abençôo hoje e dou-te as boas vindas ao meu reino, ó Rei da Fantasia e do Faz-de-Conta !"

Filipe não entendia nada, mas se sentia feliz. Como há muito tempo não se sentia...

"Você, Filipe, é homem, e homens não podem viver muito tempo aqui embaixo. Você Lunarão, é peixe, e peixes não podem viver por muito tempo lá em cima."

Lunarão começava a ficar triste. Será que sua longa busca acabaria em separação do seu criador ?

"Mas a história de vocês não acabará assim.", continuou o Rei do Mar, "eu lhes concedo o dom de, uma noite por ano, poderem escolher entre ficar até o raiar do sol na terra ou no mar. Se na terra, Lunarão se transformará em gente. Se no mar, Filipe será um tubarão. Então, somente durante esta noite, vocês poderão ficar juntos e matar a saudade que vocês com certeza tem um do outro"

"E quando será esta noite ?" perguntou Filipe.

"Será sempre na sétima lua cheia do ano. Não percam esta chance."

E Lunarão levou Filipe de volta ao barco onde, para espanto dos dois, não havia passado nem um minuto desde o resgate e, conforme a luz esmeralda que brilhava lá nas profundezas ia se apagando, os dois se despediam e Filipe subia com cuidade até a superfície, onde foi puxado pelos seus amigos homens.

Lunarão ficou ali. Cinco metros de profundidade e olhos fixos no barco que se afastava. Ele sabia o lugar do encontro, daqui a um mês. Seria um lugar secreto, mas nem tanto. Era onde o Lunarão surgira pela primeira vez. Aquela praia, em Mongaguá, no Brasil.


Com o passar dos anos, os pescadores da região começaram a contar lendas de um homem que, na sétima lua cheia do ano, vira peixe e percorre os mares ao lado de um tubarão, às vezes dando saltos de mais de vinte metros de altura, tentando alcançar a lua cheia e às vezes virando gente, quando se aproxima o dia e ficam os dois sentados na praia, conversando, esperando o primeiro raio de sol, para um deles virar peixe de novo e o outro se levantar e voltar ao mundo dos homens.


Se eles soubessem o que eu sei....



Ao meu sobrinho Filipe, parceiro e cúmplice desta estória.

Ao meu pai Mario, que me ensinou a contar estórias

Sorocaba, agosto de 2006