A Barata Stephapoulas

Eduardo Valente

Era uma sortuda aquela baratinha... Quando tinha um dia de idade, um vento forte, bem forte mesmo, a carregou para dentro de um ônibus. Aquele Campinas-Sorocaba...

No começo, aterrorizada, Stephapoulas ficava só procurando lugares prá se esconder, porque ela não sabia se aqueles seres grandões que entravam e saíam do ônibus eram bons ou maus. Com o tempo percebeu que existiam bons e maus. Os melhores eram aqueles gordões que insistiam em fazer piquenique dentro do ônibus. Quando aparecia um daqueles, Stephapoulas já lambia os beiços porque de noite, quando tudo estivesse quieto, ia ter uma festa de arromba!

Stephapoulas foi crescendo e viajando. Sempre Sorocaba-Campinas, Campinas-Sorocaba. Mas não era isso que ela dizia para as outras baratas, não! Considerada a maior heroína das baratas da Vila Barata, já tinha viajado para a Rússia quando era comunista, para o Japão, para os Estados Unidos (várias vezes), para a Europa, enfim, para mais de um milhão de lugares. Tudo de mentirinha.

Tamanha era a imaginação de Stephapoulas e tamanha a ingenuidade do povo de Vila Barata que ela deleitava-se na fama construída sobre fantasias e mais fantasias. Tinham até pensado em levantar um monumento para Stephapoulas, mas ela pediu, humildemente, que fosse poupada disso...

Aliás, Stephapoulas ou Sté (como as baratas a chamavam), era um nome artístico. Seu nome de baratismo era Odecilma, horrível até mesmo para uma barata, principalmente para uma barata heroína. Então, um dia há três anos atrás, ela veio com a história de que havia sido coroada rainha, lá numa ilha grega que ela não conseguia pronunciar direito e ganhado o nome de Stephapoulas. Foi por amor à vila onde tinha nascido que ela recusou o título e só ficou com o nome. Esperta aquela barata...

Sté, para viajar, esperava que o ônibus parasse na rodoviária e quando ninguém estava olhando, voava para aquela frestinha que só ela conhecia e já estava dentro do ônibus. Se aparecia alguém falante, Sté já corria pra perto dele e ficava escutando as histórias, ou então lia, de um lugar bem escondidinho, o jornal (ela gostava mais do suplemento de turismo, obviamente...) de qualquer um que resolvesse ler no ônibus. Sté era uma barata moderna, sabia ler e não tinha preconceito.

Dias atrás ela voltou de viagem e já foi contando causo. Tinha ido à Austrália, e passeado dentro do bolso de um canguru. Lá dentro conversara com o filhotinho e aprendera muita coisa sobre aquelas terras. Depois passeou de bumerangue até cair cansada e enjoada de tanto rodar. Haja estômago de barata... Na volta, viu o mar e parou prá conversar com uns golfinhos muito amigos que ela tinha. E o papo estava tão gostoso que quase ela perde o ônibus, quase porque se ela não fosse uma barata atleta, ó: babau! E enquanto contava, as baratinhas pequenas, com os olhos e os ouvidos atentíssimos, não perdiam nem as pigarradas que ela dava de vez em quando, nem as músicas que ela aprendia nas viagens.

Tudo mentira! Acontece que alguém abriu o jornal e lá estava: Austrália: A Terra dos Cangurus! Já viu que a Sté leu tudinho, bem rapidinho, antes que ele virasse a página. Noutra página, tinha uma reportagem sobre Fernando de Noronha, que falava dos golfinhos, e Sté juntou tudo e bolou uma história bem feitinha, não acha?

Outra vez, o ônibus estava quase saindo e lá ia Sté para dentro. Logo, logo, partia o dito-cujo e lá ia Sté rumo a Campinas. De mentirinha, prá Itália.

Contou então que vira a Torre de Pisa e que ela não era de pizza, mas de pedra. Aproveitando o espanto das companheiras, contou que quase foi engolida por um sapão italiano e só não foi porque era uma barata atleta e... bem... já sabem o que vem depois... Passeara de gôndola, de pedalinho.

- Tinha pedalinho na Itália, Sté ?

- Claro, Cotinha, tinha caiaque e também veleiro, mas eu gostava mesmo era andar de gôndola, porque não tem no Brasil. Comi tanto, mas tanto, que estou tão gorda que quase não consigo voar de volta...

Quase não, não conseguia até ontem. Porisso é que ela demorou três dias dentro do ônibus. Não é que uns sorocabanos foram prá Itália, desceram no aeroporto de Viracopos e vieram de ônibus para Sorocaba? Durante a viagem, contavam histórias e mais histórias: das gôndolas, da Torre de Pisa, de Napoli, Florença, Turim, do mar Mediterrâneo, das comidas (Sté babava de gosto nestas horas) e dos habitantes de lá. Sté prestava atenção em tudo e aprendeu até o sotaque que os turistas falavam. E lá ficava Sté treinando e falando "polenta", "mama mia", "santo dio", "o sole mio" e outras frases que os turistas soltavam.

Quando Sté estava para sair do ônibus, percebeu que o macarrão que os turistas traziam (já meio passado, perfeito para uma barata) tinha virado e caiu um monte no bagageiro de mão do ônibus. Sté aproveitou para inventar a história de que a Itália, além de ser muito longe, era muito grande para se conhecer num dia, e correu para a comilança. Em três horas, papou tudo. Ficou tão gorda que não conseguia nem andar, quanto mais voar. Se arrastou para um canto, antes que o motorista resolvesse limpar aquilo e a pegasse no flagra. Sete dias depois, voltou lampeira e falante. Ainda estava meio gordinha e as baratas corocas já perguntavam se sua vida não tinha barato. Sté, desconversando, disse que por enquanto não, que ela era muito jovem e não havia espaço para romances. Trouxe até um presente da Itália para os pais: um fio de macarrão espaguete. Foi a maior festa! Convidaram a vizinhança inteira e aquela noite ficou na história da Vila Barata.

Sté, cada vez com mais cartaz entre as baratas, tinha regalias. Dava autógrafos e ganhava presentes. Convidavam-na para todas as festas que ela aceitava ir só na metade. Tenho que trabalhar, dizia ela para a barataiada. Ossos do ofício, dizia ela para ela mesma.

Outra viagem famosa de Sté foi quando ela foi para o Havaí, ou Hawaii como ela falava, assim ó, com sotaque: Ráu Ái. Surfou em muitas praias, em toda a costa havaiana. Gostou mesmo foi de Pipeline. Quando contava do medo que passou quando estava numa prancha de surf, dentro de um "tubo", as baratinhas adolescentes juravam entre si que um dia iriam para lá e pediam para Sté as levar. Sté dizia que só quando elas forem mais velhas e mais fortes, atletas como ela. Saía de órbita ao falar das vestimentas e da beleza do povo e do lugar. Das saias de sisal e dos colares de flores. Das praias e dos vulcões.

Quando falou dos vulcões, Sté resolveu explicar o porquê da asinha queimada e da perninha quebrada. Foi lá mesmo, no Havaí (Hawaii, né Sté?). Quando passeava e voava pela ilha, um vulcão resolveu explodir justamente na hora que ela passava por cima dele. As baratinhas já pensaram duas vezes se valia a pena continuar com os planos de surfar lá. Quando ela percebeu o que estava acontecendo, voou com toda a força de suas asas e só escapou viva daquela torrente de vapores ardentes e lava porque era atleta e (já sabemos desta parte, Sté...). Bem, a asa tinha sido queimada por uma onda de lava de que ela escapou por um triz. A perninha foi logo depois, quando, com a dor causada pela asa queimada, ela caiu de uma altura de trinta andares. Felizmente ela era atleta (Sté...) e sobreviveu.

A verdade verdadeira? Uma trupe de surfistas entrara no ônibus, dois dias depois de Sté entrar. Ela já estava cansada porque não aparecera ninguém interessante nestes dias e não conseguia concentrar-se para bolar uma história. Quando surgiram os surfistas, Sté viu neles a salvação. Prestava atenção do mesmo jeito que as baratinhas nela quando contava as estórias. Aprendeu alguns termos havaianos, aprendeu a falar Hawaii, aprendeu nomes de praias e de vulcões. Estava tão absorta que nem viu quando derrubaram uma brasona de cigarro nas suas asas. Quando percebeu, assustou-se tanto que esqueceu-se das normas de segurança para baratas e voou pelo ônibus para pegar ar. Uma revista jogada por alguém com mira muito boa (boa demais,pensou consigo mesmo Sté!) acertou sua perninha e a quebrou. A duras penas, conseguiu refugiar-se numa frestinha e "daqui não saio, daqui ninguém me tira". Nem com inseticida.

Mas aquele dia que a gente sabe que vem, mas não quer nem pensar nele, veio. O conselho das baratas anciãs (com mais de sete anos) resolveu que Sté devia preparar uma tropa de baratas para que conhecessem o mundo e depois estivessem prontas para reconquistá-lo dos homens. Stephapoulas desaprovou veementemente mas, como "era jovem demais para ter real consciência dos interesses da Nação Barata", foi ignorada. PelamordoGrandeBarato, dizia Sté, é perigoso demais!

Mas não tinha jeito. Quando voltou da China de Mentira, estavam a postos quinhentos e cinqüenta baratões, de duas polegadas cada um, todos atletas como Sté, prontos para dar sua vida aos ideais das baratas. Sté não sabia o que fazer! Pensava ela que na primeira viagem, tudo bem, iriam para Campinas e seria um bom teste para a tropa mas, e depois? Depois de cinco viagens seguidas para Campinas quem acreditaria ainda em Sté? Certamente ninguém! Poderia até receber a pena máxima e ser empalada com um alfinete entomológico! Limpo!

Com cara de velório, lá foram as quinhentas e cinqüenta e uma baratas para dentro do ônibus. Como ninguém percebeu, eu não sei, mas o fato é que entraram. Durante a viagem de ida, perguntavam para Sté para onde iriam e Sté lhes dizia que não sabia. Só quando chegassem lá.

Uma hora e meia depois, estavam em Campinas.

Sté fez cara de pensativa... Olhou... Olhou... e....

- Campinas! Isso mesmo! Estamos em Campinas!

Na primeira oportunidade, a barataiada voou e combinou de se encontrarem às oito e vinte ali mesmo.

Noventa e sete baratas, por não estarem acostumadas com a cidade, estão perdidas até hoje.

Cento e vinte e seis foram pisoteadas.

Quarenta e duas comidas por bichos.

Vinte e uma morreram intoxicadas por Detefon.

Sobraram somente duzentos e sessenta e cinco baratas que, de tão apavoradas não tiveram tempo nem de comer.

Dizia Sté que no começo é assim mesmo. Por isso, deviam voltar para Campinas algumas vezes ainda (pensou rápido, Sté...) para aprenderem melhor sobre esta cidade. As baratas tremiam de medo só de pensar em ter que voltar àquela cidade. Mas como barata tem memória curta, depois de quinze minutos dentro do ônibus bateu fome. Muuuuuita fome!

- Sté, meu estômago tá roncando feito o motor do ônibus!

- Sté, se eu não comer agora, vou desmaiar

- Sté! Eu não aguento mais !

Sté os acalmava e contava que os homens podem matar a todos se alguma for descoberta. Mas não adiantou... Uma hora de viagem e as baratas estavam tendo alucinações. Foi aí que uma criança derrubou um pirulito no chão e as baratas não resistiram. Atacaram em peso! Aquele monte de baratas em cima de um pirulito, uma gritaria infernal dentro do ônibus e, por fim, o gesto fatídico: apertaram a lata de inseticida!

O ônibus parou no meio da estrada e cadáveres de baratas eram jogados aos montes para fora. O motorista prometeu que o ônibus seria inteiramente inspecionado e dedetizado na chegada. Dito e feito. O restinho de baratas que sobrou (umas vinte, entre elas Sté) não resistiu ao DDT e foram varridas agonizantes para fora do ônibus.

A Vila Barata, ao tomar conhecimento do fato, alvoroçou-se. Fizeram uma procissão para descobrir das baratas quase mortas o que ocorrera. Ao chegar, reconheceram imediatamente Sté, perto de um pilar, de ponta-cabeça.

- Que azar, que azar tremendo !

- Conte! Conte!

- Fomos para a cidade mais violenta do mundo para as baratas...

- Qual é, Sté, qual é ?

- Justo na primeira viagem !

- Vai, Sté! Fala !

- Justo para Campinas!

...

Assim Sté deu seu último suspiro sem, no entanto, dar o braço a torcer...

Seu exoesqueleto está enterrado até agora no Memorial Stephapoulas, para heróis.

Até hoje é assim. A história se espalhou pelo mundo todo e todas as baratas morrem de medo até da simples menção do nome Campinas. Se está duvidando, quando avistar uma barata, faça a prova:

1 - Grite bem alto: Campinas!

Você verá que a barata sairá correndo ou voando.

E se não sair, é porque não escutou...

2 - Mexa então os braços e as pernas, pule, grite: Campinas !!!!!!!!!!!!!

...e verá como a barata sairá apavorada...

Se não sair, das duas uma: ou morreu, ou está paralisada de medo.

Agora com licença... Vou terminando por aqui esta história que estou de saída para a Indonésia....

Eduardo Valente, engenheiro de computação e músico nas (poucas) horas vagas. Nas horas vagas restantes se mete a escritor de contos. Esta história teve seu primeiro lampejo nos idos de 92, quando ele ia para (adivinhe aonde?) Campinas para passar mais uma semana estudando na Unicamp.

...

Quando voltou para casa, disse que tinha estudado bastante.