Um Método Alternativo e Centenário...
Como o Escotismo ainda funciona como estratégia de ensino superior
Eduardo Valente
Mestre em Engenharia de Software, PMP, professor do Uirapuru e, uma vez Escoteiro, sempre Escoteiro.
Setembro de 2008
Ao ser designado para orientar o TCC dos cursos de Redes e de Sistemas da Faculdade Uirapuru, tentei imaginar um tema diferente, ao mesmo tempo prazeroso e desafiador para os alunos. Como 2008 foi escolhido para ser o Ano Internacional do Planeta Terra e eu mesmo estou envolvido com o grupo Caturro Navegantes, em defesa do rio Sorocaba, juntei as peças e propus aos alunos o seguinte: utilizar tudo que aprenderam no curso para propor temas que unissem a tecnologia da informação e a sustentabilidade.
A idéia era mover os alunos em um sentido mais amplo da aprendizagem, onde eles pudessem criar conexões entre o meio acadêmico ( e profissional ) e o mundo em que vivemos, gerando não só responsabilidade social, mas também ambiental.
Mas o problema maior não era criar interesse nos alunos pelo tema. Era conduzi-los sem perder de vista as metas propostas, para que os trabalhos resultantes fossem aproveitáveis tanto do ponto de vista acadêmico como do ponto de vista do mercado de trabalho.
Fácil de falar, difícil de fazer. O contexto dos cursos é de alunos que trabalham normalmente durante o dia e estudam à noite, deixando pouco espaço para atividades extras. Somando-se a isto o tempo curto de aproximadamente quatro meses para se produzir o trabalho, não sobra muito espaço para erros e mesmo o improviso deve ser premeditado.
Então, resolvi apelar para uma das bases da minha educação, o Escotismo.
Fundado em 1907 pelo então general britânico Robert Stephenson Smith Baden-Powell, o movimento escoteiro tem hoje mais de 20 milhões de membros no mundo todo. Muitas de suas técnicas, agora mais que centenárias, somente há pouquíssimo tempo passaram a serem utilizadas nas escolas e, mesmo assim, raramente no ensino superior.
A seguir, descreverei num estilo de "Diário de Bordo" as etapas que enfrentamos para conseguir o tão almejado sucesso. Etapas estas que, creio eu, possam ser de utilidade para outros que se aventurem a trilhar caminhos menos percorridos e sinalizados.
A Carta-Prego
No Escotismo, a carta-prego é um jogo onde uma lista de tarefas é entregue a cada patrulha (grupo de seis a oito meninos) e esta deve executar todas as tarefas da lista com a maior perfeição possível. O nome carta-prego vem da tradição de pregar a tal carta em um poste onde todos podem ver as tarefas . Com o tempo, cria-se neles uma cultura de excelência onde os escoteiros fazem de tudo para serem perfeitos. Mesmo que quase nunca consigam, o processo é tremendamente enriquecedor.
No meio acadêmico ( ou adulto ) temos um outro nome para este jogo: briefing ou escopo do projeto. No final das contas, a utilidade é a mesma: definir o trabalho a ser feito da maneira mais objetiva e clara possível, sem ambigüidades e termos vagos.
A primeira receita para o sucesso de atividades como estas vem desta técnica, onde o princípio básico é: antes de qualquer outra coisa, defina o que deve ser feito, como e quando. Não defina regras demasiadamente rígidas, pois você corre o risco de não conseguir se adaptar quando a situação o exigir.
Assim, no primeiro dia de aula, o briefing estava disponível a todos os alunos. Passamos toda a aula esclarecendo todos os pontos não suficientemente esclarecidos e definindo situações de conflito com o máximo de antecedência possível.
As Patrulhas
Os escoteiros se agrupam em equipes, chamadas patrulhas por escoteiros e sêniores ( 11 a 14 anos e 15 a 17 anos, respectivamente ) e matilhas nos lobinhos ( 7 a 10 anos ). O resultado importante disto é desenvolver o sentimento de "fazer parte" nos garotos. Assim, o chefe escoteiro não chama um a um os escoteiros, mas pelo nome da patrulha, como uma unidade.
O nome varia em cada ramo (faixa etária). As matilhas são nomeadas por cores e assim temos os lobos amarelos, os azuis e assim por diante. No ramo escoteiro, é a vez dos bichos e as patrulhas são chamadas de leão, águia, morcego, etc. No ramo sênior, é a vez dos pontos geográficos como Caburaí, Ipanema e Iguaçu.
Defini ( na primeira aula: estava no briefing ) que os alunos deveriam se agrupar e estes grupos deveriam ter nomes que representassem a ligação entre a tecnologia da informação e o meio ambiente. Isto deveria se justificado num documento, onde também deveria haver a missão do grupo.
A partir do momento da definição do nome dos grupos, passei a chamá-los pelo nome que escolheram, não mais individualmente. Isto valia também para toda comunicação, onde só respondia emails que viessem com cópia para todos do grupo. Em pouco tempo, os alunos já estavam definindo logotipos e outras identificações com o grupo ...
Um outro fator importante advindo de formação de grupos é que o orientador deve deixar bem claro a confiança depositada nos alunos, pois os mesmos estão em pleno processo criativo e toda e qualquer restrição mal planejada pode pôr tudo a perder. Do mesmo modo, ao perceberem a confiança pelo orientador, sentem-se mais motivados a encontrarem as melhores soluções.
Os Velhos Lobos
Mesmo com todo um início promissor, há sempre o risco de que o resultado final seja de qualidade inferior. Isto é notadamente óbvio quando se tem pouco tempo e pouca familiaridade com o contexto do problema. É aí que entram os Velhos Lobos...
Maior experiência, mais truques na bagagem, o que às vezes chamamos de mentoring é basicamente a transmissão de conhecimento oral, através de palestras, exposições e atividades do gênero.
O primeiro Velho Lobo veio pelo datashow: as classes assistiram o documentário Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore. Um item obrigatório para começar a se ambientar sobre o aquecimento global e, por tabela, na questão da sustentabilidade.
O segundo foi meu amigo Wendell, da Associação Icatu de Cerquilho e vice-presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Sorocaba e Médio Tietê. Explanando e esclarecendo sobre a atuação do Comitê de Bacias e sua influência no tocante ao destino das verbas para a preservação de nossos mananciais.
Faltava um Velho Lobo, que puxasse pelo lado da responsabilidade socio-ambiental e que motivasse os alunos a realmente fazer algo que melhorasse o mundo em que vivemos. Ninguém melhor que o Jorge Proença, empreendedor social, cuja organização Vamos Melhorar o Mundo trata exatamente disto.
Tanto no Escotismo como no meio acadêmico, é importante transmitir aos mais novos de que a missão não é só deles e que muita gente mais experiente e mais poderosa se interessa pelos mesmos assuntos. Isto reforça o sentimento de identificação e motiva os aprendizes a seguirem em frente, renovando seus ânimos.
A Corte de Honra
Em certos momentos, é necessário parar e decidir qual o rumo a ser tomado. Esta é a função da Corte de Honra na tropa escoteira, onde os escoteiros mais graduados decidem as atividades da tropa, se é necessário alguma espécie de correção para algum membro, etc. Isto é feito confidencialmente entre eles. O chefe, único elemento adulto na reunião, não deve intervir.
Utilizei isto no TCC em formato de seminário. Cada grupo apresentou três propostas relacionadas ao tema central e os demais grupos votaram, considerando cinco quesitos:
- Aderência ao Tema Sustentabilidade e T.I.,
- Viabilidade,
- Impacto,
- Interesse para a Sociedade e
- Interesse para a T.I.
O resultado disto foi que, além de escolherem os temas da forma mais democrática possível, somente um grupo de cada turma ficou com um tema que não tinha sido proposto por eles mesmos. Com isto, a segunda fase do TCC estava pronta para começar, com cada grupo tendo um tema já aprovado para preparar todo o planejamento para sua efetiva realização.
Minha intenção era de ter um momento bem definido no meio do processo onde as maiores decisões de rumo e tema estariam tomadas e ainda houvesse tempo suficiente para se produzir um bom trabalho com quem tivesse "sobrevivido" até este ponto. No seminário a taxa de mortalidade foi de 1 em 11, pois um dos grupos desistiu e não apresentou os temas. Ainda é a melhor opção, pois para a segunda fase eu precisava que os grupos estivessem focados nos seus temas e a taxa de desistência, se ocorresse, tendesse a zero.
Deixá-los decidir por conta própria os melhores temas agrega duas coisas importantes: motivação e sensação de que o orientador realmente confia neles. Na minha opinião, confiança na equipe e da equipe é item básico para o sucesso de qualquer projeto.
O Grande Jogo
Com os grupos possuindo cada um seu tema, toda a segunda fase do TCC foi focada na produção do plano de projeto para os temas. Um projeto pode se tornar algo extremamente maçante e, no caso de projetos desta natureza - sustentabilidade e tecnologia da informação - quanto mais aparência de jogo, onde a criatividade, a motivação e o espírito de equipe definem o resultado final mais inclusive do que a expertise sobre o assunto, mais o resultado tende a melhorar em qualidade.
Depois de algumas conversas, conseguimos mudar o formato de defesa do trabalho: não mais seria com professores sentados na frente dos alunos, assistindo a uma apresentação no datashow. "Vamos fazer um evento?", perguntei a eles. "Vamos!", responderam os alunos. "Então, isto depende de vocês. Produzam um trabalho digno de uma feira que eu conseguirei o ginásio para todos apresentarem".
Aposta feita, aposta vencida. Com os grupos produzindo trabalhos de boa qualidade e de interesse do público em geral, agendei o dia 10 de junho para a apresentação dos trabalhos...
Conseguimos, sem a tradicional formalidade, obter uma formalidade ainda maior sem ser maçante. Os alunos capricharam nas exposições e convidaram seus familiares e amigos que, sem sombra de dúvida, se sentiram engrandecidos com o que seus filhos e filhas, maridos e esposas e amigos fizeram em tão pouco tempo.
A vida, como disse Baden-Powell, deve ser encarada como um jogo, o Grande Jogo, com regras e prêmios para os vencedores. Isto faz com que encaremos a vida de uma maneira mais gostosa, mais saudável.
Dividir para Conquistar
Quando, em acampamentos escoteiros, é necessário passar muita informação diferente para muita gente e o tempo é curto, opta-se pelo sistema de bases, que é simplesmente definir uma base/stand física para cada tema e o(s) palestrante(s)/instrutor(es) tem um tempo predeterminado para expor seu trabalho. Ao fim do tempo de exposição, o grupo move-se para a próxima base e assim, rodada após rodada de apresentações, consegue-se em pouco tempo uma aprendizagem de um grande volume de informação.
Definimos a duração de dez minutos para as exposições. Como havia dez grupos de alunos, isto resultava que, em uma hora e quarenta minutos, qualquer um que viesse ao evento poderia conhecer todos os dez projetos. Normalmente este é o tempo gasto por, no máximo, dois grupos exporem seus trabalhos e serem avaliados pela banca, ou seja, tivemos um aumento de desempenho de 400%!
Dica da vez: tem muita coisa para expor e pouco tempo? Divida o trabalho e conquiste seu objetivo através do sistema de bases.
Considerações Finais
A intenção do educador deve ser sempre agregar conhecimento aos seus alunos, não somente ensinar ou expor um assunto. Quando trabalhamos com escoteiros, temos em nossas mãos crianças entre sete e dezessete anos que normalmente estão muito mais motivadas que a média. O mesmo não ocorre num curso noturno de graduação. São adultos que, depois de um dia de trabalho, ainda arranjam tempo para irem à faculdade e tentarem, lutando contra o sono e o cansaço, aprenderem algo. É brutal.
Que tal amenizar isto, com um método centenário ( o primeiro acampamento escoteiro é de 1907! ) de educação, de eficiência amplamente comprovada, que não precisa necessariamente ter a etiqueta "Escoteiro" pregada na testa das pessoas mas que, como elemento agregador, motivador e facilitador, propiciou aos meus alunos uma experiência rica e saudável onde, além do objetivo do curso, os alunos puderam se sentir parte de uma corrente que hoje domina as estratégias das empresas: a sustentabilidade, ou crescer sem destruir.
Muitas vezes complicamos nosso ensino com estratégias ditas inovadoras mas que não passam de uma releitura de erros do passado. Proponho uma releitura também, mas dos grandes acertos. Este é o caso do Escotismo.

